“Eveline”, James Joyce

[Conto]
[Título original: Eveline]
[Inicialmente publicado em Dubliners, de 1914]
[Retirado do livro: Dubliners, ed. Penguin, coleção Signet Classics, 2007, páginas 31-36]

 

Estava sentada à janela, vendo a noite invadir a avenida. Sua cabeça inclinava-se contra as cortinas e em suas narinas estava o cheiro de cretone empoeirado. Estava cansada.

 

Poucas pessoas passavam. O homem da última casa passou rumo ao lar; ela escutou seus passos sobre o pavimento de concreto e depois esmagando o trecho cinza que ficava antes das novas casas vermelhas. Antigamente havia um campo lá, onde eles brincavam todas as tardes com outras crianças. Então um homem de Belfast comprou a área e construiu casas nela – não casas pequenas e marrons como as suas, mas radiantes casas com tetos brilhantes. As crianças da avenida costumavam brincar juntas naquela área – os Devines, os Waters, os Dunns, pequeno Keogh, o aleijado, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: ele já era bastante crescido. Seu pai freqüentemente os enxotava do campo com uma vara; mas geralmente o pequeno Keogh conseguia impedir e os alertava quando via seu pai vindo. Ainda assim, eles pareciam ter sido felizes então. Seu pai não era tão mau; e, além disso, sua mãe estava viva. Aquilo foi há muito tempo; ela e seus irmãos e irmãs estavam agora todos crescidos; sua mãe estava morta. Tizzie Dunn estava morta, também, e os Waters tinham voltado para a Inglaterra. Tudo muda. Agora ela iria embora, como os outros, deixaria seu lar.

 

Lar! Olhou o quarto em volta, revendo todos os objetos familiares que havia espanado uma vez por semana durante tantos anos. Talvez ela nunca mais visse novamente aqueles objetos familiares dos quais nunca sonhara ser separada. E ainda assim, durante todos aqueles anos, ela nunca descobrira o nome do padre cuja fotografia amarelada pendia na parede, sobre o harmônio quebrado ao lado de um impresso colorido com promessas à Abençoada Maria Margarete Alacoque. Ele havia sido um colega de escola de seu pai. Toda vez que ele mostrava a fotografia a um visitante, falava com casualidade:

 

– Ele está em Melbourne.

 

Ela consentira em ir embora, em deixar sua casa. Era aquela uma decisão inteligente? Tentou pesar os dois lados da questão. Em casa, de qualquer forma, ela tinha abrigo e comida. Claro, tinha que trabalhar duro tanto em casa quanto no emprego. O que diriam dela na Loja quando descobrissem que havia fugido com um parceiro? Diriam que era uma tola, talvez; e seu lugar seria preenchido através de um anúncio. A senhorita Gavan ficaria satisfeita. Ela sempre lhe aborrecera, especialmente quando havia gente ouvindo.

 

– Senhorita Hill, não vê que essas damas estão esperando?

 

– Apresse-se, senhorita Hill, por favor.

 

Ela não derramaria muitas lágrimas por deixar a Loja.

 

Em sua nova casa, em um distante e desconhecido país, não seria assim. Ela estaria casada – ela, Eveline. As pessoas lhe tratariam com respeito. Não seria tratada como o fora sua mãe. Mesmo agora, embora tivesse dezenove anos, às vezes se sentia em perigo por conta da violência do pai. Sabia que era aquilo que lhe havia causado palpitações. Quando estavam crescendo, ele nunca implicara com ela, como costumava fazer com Harry e Ernest, porque ela era uma garota; mas ultimamente ele começara a ameaçá-la e dizer o que seria capaz de lhe fazer em nome de sua mãe morta. E agora não havia ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que vivia na igreja trabalhando com ornamentos, estava sempre em algum ponto distante do país. Além disso, os inevitáveis bate-bocas sobre dinheiro nas noites de sábado haviam começado a cansá-la incrivelmente. Ela sempre dava todo seu salário – sete shillings – e Harry sempre mandava o que podia, mas o problema era conseguir qualquer dinheiro de seu pai. Ele dizia que ela desperdiçava dinheiro, que não tinha juízo, que não daria seu dinheiro arduamente conseguido para ser jogado na rua, e muito mais, porque geralmente ele estava muito mal nas noites de sábado. No final ele acabava dando o dinheiro e perguntando se ela pensava em comprar a jantar de domingo. Então ela tinha que correr o mais rápido possível para fazer as compras, segurando firme sua bolsa de couro enquanto abria caminho a cotoveladas pela multidão e retornava tarde pra casa com seu pacote de provisões. Ela tinha trabalho para manter a casa unida e cuidar para que as duas crianças deixadas sob seus cuidados fossem regularmente à escola e se alimentassem regularmente. Era um trabalho duro – uma vida dura –, mas agora que ela estava perto de ir embora, não a via como uma vida totalmente indesejável.

 

Estava perto de explorar outra vida com Frank. Frank era muito amável, viril, generoso.  Iria embora com ele na embarcação noturna e seria sua esposa e viveriam em Buenos Aires, onde ele tinha uma casa à espera. Como ela lembrava bem a primeira vez que o havia visto! Ele estava alojado em uma casa na estrada principal que ela costumava visitar. Parecia há poucas semanas. Ele estava ao portão, o chapéu pontudo para trás e o cabelo tombado sobre o rosto de bronze. Então se conheceram. Ele ia encontrá-la fora da Loja toda noite e a acompanhava até em casa. Levou-a para ver “A Garota Boêmia”, e ela se sentiu exultante, sentada numa parte do teatro em que não costumava sentar. Ele gostava muito de música e cantava um pouco. As pessoas sabiam que eles estavam flertando e, quando ele cantava sobre a moça que ama um marinheiro, ela sempre se sentia prazerosamente inquieta. Ele costumava chamá-la Poppens, por diversão. No começo tinha sido excitante para ela o simples fato de ter um amigo, de modo que começou a gostar dele. Ele contava histórias de países distantes. Começara como empregado de convés, ganhando um pond por mês num navio da Allan Line que ia ao Canadá. Contou-lhe os nomes dos navios em que esteve e os diferentes serviços que fizera. Navegara pelo Estreito de Magellan e contou-lhe histórias dos terríveis patagônios. Disse que assentou em Buenos Aires e tinha voltado ao antigo país apenas para umas férias. Claro, o pai de Eveline descobrira o caso entre os dois e proibiu a filha de falar com Frank.

 

– Eu conheço esses caras marinheiros, ele disse.

 

Certo dia ele brigou com Frank e, depois disso, ela tinha que encontrar seu amor secretamente.

 

A noite se aprofundou na avenida. O branco das duas cartas em seu colo ficou indistinto. Uma era para Harry; a outra era para seu pai. Ernest tinha sido seu preferido, mas também gostava de Harry. Seu pai estava envelhecendo; ele sentiria sua falta. Às vezes ele podia ser amável. Não fazia muito tempo, quando ela estivera de cama por um dia, ele lera uma história de fantasma e fizera torradas. Num outro dia, quando sua mãe era viva, eles foram todos para um piquenique na Colina Howth. Lembrava do pai mexendo no chapéu da mãe para fazer as crianças rirem.

 

 O tempo estava se esgotando, mas ela continuava sentada à janela, dobrando a cabeça contra a cortina da janela, inalando o cheiro de cretone empoeirado. De algum lugar da avenida ela podia ouvir um órgão tocando. O ar lhe era familiar. Estranho que ele retornasse exatamente naquela noite, para lembrá-la das promessas à mãe, a promessa de manter a casa unida o máximo que pudesse. Lembrava da última noite da mãe doente; ela estava novamente no quarto escuro no outro lado da sala, e lá fora podia ouvir um melancólico som da Itália. O tocador do órgão tinha sido mandado embora e deram-lhe seis pence. Lembrava do pai aprumando-se de volta ao quarto:

 

– Malditos italianos, vindo até aqui!

 

Enquanto meditava, a comovente visão do estado da mãe acabou por enfeitiçar o seu ser – aquela vida de sacrifícios triviais encerrando-se na loucura final. Arrepiou-se ao ouvir novamente a mãe pronunciar com uma insistência ridícula:

 

– Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!

 

Ergueu-se em um repentino impulso de terror. Escapar! Tinha que escapar! Frank a salvaria. Ele lhe daria vida, talvez amor, também. Ela queria viver. Por que tinha que ser infeliz? Tinha direito à felicidade. Frank a envolveria nos braços. Ele a salvaria.

 

* * *

 

Ela estava no meio da multidão em movimento no porto de North Wall. Ele segurou sua mão, e ela sabia que ele estava lhe falando, dizendo repetidamente algo sobre a passagem. O porto estava cheio de soldados com malas marrons. Através das amplas entradas dos barracos ela vislumbrou o preto da embarcação, que estava ao lado do muro do cais. Não respondeu nada. Sentiu a face pálida e gélida e, do labirinto de seu sofrimento, rogou a Deus para lhe indicar o caminho, para mostrar qual era sua missão. A embarcação soltou na névoa um silvo triste. Se ela partisse, amanhã estaria no mar com Frank, navegando rumo a Buenos Aires. Suas passagens estavam reservadas. Seria possível a ela voltar atrás, depois de tudo que ele tinha feito? Seu sofrimento despertou uma náusea em seu corpo e ela continuou movendo os lábios em uma fervorosa e silenciosa prece.

 

Um sino tiniu em seu coração. Ela o sentiu tomar sua mão:

 

– Venha!

 

Todos os mares do mundo tombaram em seu peito. Ele tentava levá-la rumo a eles: ele a afogaria. Ela agarrou com ambas as mãos a grade de ferro.

 

– Venha!

 

Não! Não! Não! Era impossível. Em frenesi, suas mãos apertavam o ferro. Do meio dos mares ela soltou um grito de angústia!

 

– Eveline! Evvy!

 

Ele passou da barreira e lhe disse para segui-lo. Ordenaram-no seguir em frente, mas ele ainda a chamava. Ela lhe dirigiu um rosto branco, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não davam nenhum sinal de amor ou despedida ou agradecimento.

 

 

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“Auschwitz, cidade tranqüila”, Primo Levi

[Crônica]
[Título original: Auschwitz, cittá tranquilla]
[Inicialmente publicada em 8 de março de 1984, no jornal La Stampa]
[Retirado do livro: L’ultimo natale di guerra, ed. Einaudi, coleção Classici Moderni, 2002, páginas 31-35]

Pode surpreender o fato de que no campo de concentração um dos estados de ânimo mais freqüentes fosse a curiosidade. Porém, estávamos, além de assustados, humilhados e desesperados, curiosos: famintos de pão e também de compreensão. O mundo à nossa volta parecia de cabeça para baixo, portanto alguém devia tê-lo emborcado, e por isso esta pessoa mesma estar de cabeça para baixo: um, mil, um milhão de seres anti-humanos, criados para torcer aquilo que estava direito, para sujar o limpo. Era uma simplificação ilícita, mas naquele tempo e naquele lugar não éramos capazes de qualquer idéia complexa.

No que diz respeito aos senhores do mal, essa curiosidade, que admito conservar, e que não está limitada aos chefes nazistas, continua existindo. São lançados centenas de livros sobre a psicologia de Hitler, Stálin, Himmler, Goebbels, e já li dezenas sem que me satisfizessem: mas é possível que se trate aqui de uma insuficiência essencial da página documentária; esta quase não mais possui o poder de restituir o íntimo de um ser humano: para este fim, mais que o historiador ou o psicólogo, são úteis o dramaturgo ou o poeta.

Entretanto, essa minha pesquisa não foi de todo infrutífera: um destino estranho, mesmo provocativo, me colocou nas pegadas de um dos “do outro lado”, por certo não um grande do mal, talvez nem mesmo um malvado digno do título, porém uma amostra e uma testemunha. Uma testemunha a contragosto, que não desejava sê-lo, mas que o foi sem querer, e talvez mesmo sem saber. Aqueles que testemunham através de seu comportamento são os mais preciosos, porque verídicos.

Ele era um quase-eu, um outro eu-mesmo ao contrário. Éramos coetâneos, não diferentes em formação, talvez nem mesmo em personalidade; ele, Mertens, jovem químico alemão e católico, e eu, jovem químico italiano e judeu. Potencialmente dois amigos: de fato, trabalhávamos na mesma fábrica, mas eu estava do lado de dentro do arame farpado, e ele, fora. Entretanto, estávamos trabalhando a uma enorme distância um do outro, nos canteiros de Bruna-Werke, em Auschwitz, e que nós dois, ele Oberingenieur e eu, químico-escravo, tivéssemos nos encontrado é improvável, e de qualquer forma não mais verificável. Nem mesmo depois nos vimos.

Aquilo que sei dele provém de cartas de amigos em comum: o mundo se revela às vezes risivelmente pequeno, a ponto de consentir que dois químicos de países diferentes possam estar ligados por uma cadeia de conhecidos, e que estes se prestem a tecer uma rede de notícias confusas que é uma substituta imperfeita do encontro direto, mas que, porém, é melhor que a recíproca ignorância. Por esse meio, soube que Mertens havia lido meus livros sobre o campo de concentração, e provavelmente também outros, porque não era um cínico nem um insensível: tendia a negar um certo fragmento do seu passado, mas era bastante evoluído para abster-se de mentir a si mesmo. Não se presenteava com mentiras, mas com lacunas, espaços em branco.

A primeira notícia que tenho dele remonta ao final de 1941, época de repensamento para todos os alemães ainda em condições de raciocinar e de resistir à propaganda: os japoneses espalhavam-se vitoriosos por todo o sudeste asiático, os alemães assediam Leningrado e estão às portas de Moscou, mas a era das blitz acabou, o colapso da Rússia não ocorreu, e, ao invés disso, haviam começado os bombardeios aéreos de cidades alemãs. Agora a guerra é problema de todos, em todas as famílias há pelo menos um homem no fronte, e nenhum homem no fronte está seguro da incolumidade de sua família: atrás das portas das casas, a retórica belicista não tem mais vez.

Mertens é químico em uma fábrica metropolitana de pneus, e a direção da empresa lhe faz uma proposta que é quase uma ordem: terá vantagens de carreira, e talvez também políticas, se aceitar transferir-se para as Bruna-Werke de Auschwitz. A zona é tranqüila, longe do fronte e fora do raio dos bombardeios, o trabalho é lá mesmo, o estipêndio é melhor, nenhuma dificuldade de alojamento: muitas casas polonesas estão vazias… Mertens discute a situação com amigos; em sua maioria, eles lhe aconselham, não se troca o certo pelo incerto, e depois os Bruna-Werke estão em uma má região, pantanosa e insalubre. Insalubre também historicamente, a Alta Silésia é um daqueles cantos da Europa que têm mudado de donos muitas vezes, e que são habitados por povos mistos e inimigos entre si.

Mas contra o nome de Auschwitz ninguém tem objeções: ainda é um nome vazio, que não suscita ecos; uma das tantas cidades polonesas que depois da ocupação alemã mudaram de nome. Oswiecim tornou-se Auschwitz, como se bastasse isso para tornar alemães os poloneses que a habitam há séculos. É uma cidade como tantas outras.

Mertens pensa assim: está noivo, e manter sua casa na Alemanha, sob os bombardeios, é imprudente. Pede uma licença e vai ver o local. O que viu nessa primeira vistoria não sabemos: o homem voltou, se casou, não falou com ninguém, e partiu para Auschwitz com a esposa e os móveis para estabelecer-se lá longe. Os amigos, exatamente aqueles que me escreveram essa história, lhe convidaram a falar, mas ele não falou.

Não falou nem mesmo quando do seu segundo retorno à pátria, no verão de 1943, em férias (porque também na Alemanha nazista em guerra, em agosto andava-se em férias). E depois o cenário havia mudado. O fascismo italiano, batido em todos os frontes, despedaçou-se, e os aliados tomam a península; a batalha aérea contra os ingleses está perdida, e nenhum canto da Alemanha está mais protegido dos impiedosos revides aliados; os russos não apenas não caíram, como Stalingrado infligiu aos alemães, e a Hitler em particular, que havia dirigido a operação com a obstinação de um louco, a mais pungente das derrotas.

O casal Mertens é objeto de uma cautelosíssima curiosidade, porque a este ponto, a despeito de todas as precauções, Auschwitz não é mais um nome vazio. Boatos circulavam, imprecisos mas sinistros: deve-se deixar Dachan e Buchenwald, antes que as coisas fiquem piores; é um daqueles lugares sobre os quais é arriscado fazer perguntas, mas se é entre amigos íntimos, de velha data: Mertens vem de lá, deve saber alguma coisa, e se sabe, deveria contar.

Mas, enquanto cruzam-se as conversas de todos na sala de estar, as mulheres falando de emigrações e do mercado negro, os homens de seu trabalho, e alguns contam a baixa-voz a última anedota antinazista, Mertens se afasta. Na sala ao lado há um piano, ele toca e bebe, volta à sala de estar de vez em quando apenas para um outro cálice. À meia-noite está embriagado, mas o anfitrião não o perdeu de vista; arrasta-o até a mesa e lhe diz claro e forte: – Depois sente-se aqui e diga logo o que diabos há com você, e porque deve embriagar-se em vez de falar com a gente.

Mertens se sente contido entre a embriaguez, a prudência e uma certa necessidade de confessar-se: – Auschwitz é um campo de concentração – ele diz, – ou melhor, um grupo de campos de concentração: um deles é contíguo à fábrica. São homens e mulheres, sujos, em trapos, não falam alemão. Fazem o trabalho mais árduo. Nós não podíamos falar com eles. – Quem foi que proibiu? – A direção. Assim que chegamos, nos disseram que aquelas eram pessoas perigosas, bandidas, subversivas. – E você nunca falou com elas? – pergunta o anfitrião. – Não, – responde Mertens servindo-se de um outro cálice. Aqui intervém a jovem senhora Mertens: – Eu conheci uma mulher que fazia a limpeza na casa de um dirigente. Me dizia apenas “Frau, Brot”: “senhora, pão”, mas eu… – Mertens não devia estar tão embriagado, porque disse secamente à mulher: – Pare com isso – e aos outros: – Não querem mudar de assunto?

Não sei muito do comportamento de Mertens depois da queda da Alemanha. Sei que ele e sua esposa, como muitos alemães das regiões orientais, fugiram diante dos soviéticos ao longo das intermináveis estradas da derrota, cheias de neve, de escombros e de mortos; e que a seguir ele retomou seu trabalho técnico, mas recusando contatos e fechando-se cada vez mais em si mesmo.

Falou um pouco mais alguns anos depois do fim da guerra, quando não havia mais a Gestapo para fazer-lhe medo. Para interrogar-lhe, desta vez havia um “especialista”, um ex-prisioneiro que hoje é um famoso historiador dos campos de concentração, Hermann Langbein. A perguntas precisas, respondeu que havia aceitado transferir-se para Auschwitz para evitar que ao invés dele assumisse um nazista; que não havia falado com os prisioneiros por temer punições, mas que havia sempre procurado aliviar suas condições de trabalho; que àquele tempo não sabia nada das câmaras de gás, porque não havia perguntado nada a ninguém. Não se dava conta de que sua obediência era uma ajuda concreta ao regime de Hitler? Sim, hoje sim, mas não na época: nunca lhe viera à mente.

Nunca procurei me encontrar com Mertens. Eu experimentava um complexo recato, de que a aversão era apenas um dos componentes. Anos atrás, lhe escrevi uma carta: dizia que se Hitler havia subido ao poder, devastado a Europa e conduzido a Alemanha à ruína, é porque muitos bons cidadãos comportaram-se como ele, procurando não ver e calando-se quando viam. Mertens não me respondeu, e morreu alguns anos depois.

[leia também “Foram feitos para
ficar juntos”, de Primo Levi]

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“Meditação Sobre Um Cabo de Vassoura”, Jonathan Swift

[Sátira]
[Título original: A Meditation Upon a Broomstick, according to the style and manner of the honourable Robert Boyle’s Meditations]
[Inicialmente publicado em 1701]
[Retirado do livro: A Modest Proposal and Other Satirical Works, Dover Thrift Editions, 1996, páginas 23 e 24]

Esse cabo que você contempla agora jogado naquele canto, eu uma vez o vi florescente numa floresta: ele estava cheio de seiva, cheio de folhas, e cheio de ramos: mas agora, em vão tenta a ocupada arte humana porfiar com a natureza, amarrando esse seco feixe de gravetos a seu tronco sem seiva: agora ele é, quando muito, nada mais que o reverso daquilo que já foi, uma árvore posta ao contrário, os ramos no chão, e a raiz no ar; agora ele é manuseado por qualquer criada, condenado a fazer para ela um trabalho monótono, e, por conta de um destino caprichoso, destinado a limpar outras coisas, permanecendo ele mesmo deplorável: depois de um largo período, reduzido a um toco pelo serviço das empregadas, ele é ou jogado fora, ou condenado a um último uso, avivando alguma chama. Quando contemplei tal coisa, suspirei, e disse para mim mesmo, “certamente o homem é como um Cabo de Vassoura!” A natureza o mandou ao mundo forte e cheio de vida, em pleno desenvolvimento, com seu próprio cabelo na cabeça, conveniente folhagem desse vegetal racional, até que o machado da intemperança venha cortar seus ramos e deixá-lo com um tronco seco: ele então volta-se para as artes, põe uma peruca, se auto-valorizando com um cacho de cabelo artificial (e com o rosto todo coberto de pó), cabelo que não cresceu em sua cabeça; mas agora que nosso cabo de vassoura pretende entrar em cena, orgulhoso das características de faia que nunca teve, e todo coberto de poeira, apesar da limpeza empreendida no quarto da mais fina dama, devemos estar aptos a ridicularizar e desprezar sua vaidade. Como somos juízes parciais de nossas próprias excelências e dos defeitos dos outros!

Mas um cabo de vassoura, talvez, você dirá, é um emblema de uma árvore de cabeça para baixo; quanto ao homem, não passa de uma criatura invertida, suas faculdades animais perpetuamente instaladas em sua racionalidade, sua cabeça onde os calcanhares deveriam estar, humilhando-se sobre a terra! E mesmo assim, com todos os defeitos, ele ergue-se para ser um reformador universal e corretor de abusos, um eliminador de ofensas, que limpa todo canto prostituído da natureza, trazendo corrupções escondidas à luz, e levanta uma poderosa poeira onde antes não havia nenhuma; sempre compartilhando profundamente da poluição que ele pretende varrer; seus últimos dias são consumidos sob a escravidão de mulheres, e geralmente sob as que menos merecem; até que, reduzido a um toco, ele é ou chutado fora, ou usado para avivar chamas ao redor das quais outros podem se aquecer.

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“Uma Noite de Amor”, Javier Marías

[Conto]
[Título original: Una Noche de Amor]
[Inicialmente publicado em 2000, na obra Mientras Ellas Duermen]
[Retirado do livro: Una Noche de Amor, editora HK, 2005, páginas 49-60]

Minha vida sexual com minha mulher, Marta, é muito insatisfatória. Minha mulher é pouco lasciva e pouco imaginativa, não me diz coisas bonitas e boceja quando me vê galante. Por isso, às vezes vou de putas. Mas estas cada vez mais são apreensivas e estão mais caras, e ademais são rotineiras. Pouco entusiastas. Preferiria que minha mulher, Marta, fosse mais lasciva e imaginativa e que me bastasse. Fui feliz apenas uma noite com ela.

Entre as coisas que me legou meu pai ao morrer, há um pacote de cartas que ainda liberam um pouco de cheiro de colônia. Não creio que a remetente os perfumasse, mas que em algum momento de sua vida meu pai as guardou perto de um frasco e este virou sobre elas. Ainda se vê a mancha, e portanto o cheiro é sem dúvida o da colônia que usava e não usou meu pai (posto que se derramou), e não o da mulher que as enviava. Este cheiro, além do mais, é característico dele, cheiro que eu conheci muito bem e era invariável e não esqueci, sempre o mesmo durante minha infância e durante minha adolescência e durante boa parte da minha juventude, na qual ainda estou instalado ou que ainda não abandonei. Por isso, antes que a idade pudesse inibir meu interesse por estas coisas – o galante ou o passional –, decidi olhar o pacote de cartas que me legou e que até então não tivera curiosidade de olhar.

Essas cartas foram escritas por uma mulher que se chamava ou ainda se chama Mercedes. Utilizava um papel azulado e tinta negra. Sua letra era grande e maternal, de traço rápido, como se com ela não aspirasse a causar impressão, sem dúvida porque já a havia causado até a eternidade. Pois as cartas estão escritas como que por alguém que já estivesse morto enquanto as escrevia, se pretendem mensagens do além-túmulo. Não posso ao menos pensar que se tratava de um jogo, um desses jogos nos quais são aficionados as crianças e os amantes, e que consistem essencialmente em fazer-se passar por quem não se é, ou, dito de outra forma, em dar-se nomes fictícios e criar-se existências fictícias, seguramente pelo temor (não as crianças, mas sim os amantes) de que seus sentimentos demasiado fortes acabem com eles se admitem que são eles, com suas verdadeiras existências e nomes, que sofrem as experiências. É uma maneira de amortecer o mais passional e o mais intenso, agir como se ocorresse com outro, e é também a melhor maneira de observá-lo, de ser também expectador e dar-se conta dele. Além de vivê-lo, dar-se conta dele.

Essa mulher que assinava Mercedes havia optado pela ficção de enviar seu amor a meu pai mesmo depois da morte, e tão convencida parecia do lugar ou momento eterno que ocupava enquanto escrevia (ou tão segura da aceitação daquela convenção por parte da destinatário) que pouco ou nada parecia lhe importar o fato de confiar seus envelopes ao correio, nem de que estes levassem selos normais e carimbos da cidade de Gijón. Iam fechadas, e a única coisa que não possuíam era remetente, mas isto, em uma relação semi-clandestina (as cartas pertencem todas ao período de viuvez de meu pai, mas ele jamais me falou desta paixão tardia), é pouco menos que obrigatório. Tampouco nada teria de particular a existência desta correspondência que ignoro, se meu pai responderia ou não pela via ordinária, pois nada é mais freqüente que a submissão sexual dos viúvos a mulheres intrépidas e fogosas (ou desenganadas). Por outra parte, as declarações, promessas, exigências, rememorações, veemências, protestos, rubores e obscenidades de que se nutrem estas cartas (sobretudo de obscenidade) são convencionais e se destacam menos por seu estilo que por seu atrevimento. Tudo isso nada teria de particular, quero dizer, se não fosse pelo fato de que a poucos dias de decidir-me abrir o pacote e passar a vista pelas folhas azuladas com mais equanimidade que escândalo, eu mesmo recebi uma carta da mulher chamada Mercedes, da qual não posso acrescentar que ainda vive, posto que me parecia estar morta desde o princípio.

A carta de Mercedes dirigida a meu nome era muito correta, não se tomava confianças pelo fato de haver tido intimidade com meu progenitor nem tampouco incorria na vulgaridade de transferir seu amor pelo pai, agora que este estava morto, a um doentio amor por seu filho, que seguia e segue vivo e era e sou eu. Com escassa vergonha por saber-me inteirado de sua relação, se limitava a expor-me uma preocupação e uma queixa e a reclamar a ausência do amante, que, ao contrário do prometido tantas e tantas vezes, ainda não havia chegado a seu lado seis meses depois de sua morte: não se havia reunido com ela ali onde haviam combinado, ou talvez seria melhor dizer quando. Em seu modo de ver, aquilo só podia dever-se a duas possíveis causas: a um repentino e posterior desamor no momento da expiração, o que fizera o defunto descumprir sua palavra, ou ao fato de que, ao contrário do disposto por ele, seu corpo haver sido enterrado e não cremado, o que – segundo Mercedes, que o comentava com naturalidade – poderia, se não impossibilitar, dificultar o escatológico encontro, ou reencontro.

Era certo que meu pai havia solicitado sua cremação, ainda que sem demasiada insistência (talvez porque foi só ao final, com a vontade minada), e que no entanto havia sido enterrado junto a minha mãe, já que ainda restava um lugar no jazigo familiar. Marta e eu o julgamos mais próprio e sensato e mais cômodo. A brincadeira me pareceu de mau gosto. Joguei a nova carta de Mercedes no lixo e ainda estive tentado a fazer o mesmo com o pacote antigo. O novo envelope levava selo e carimbo também de Gijón. Não cheirava a nada. Eu não estava disposto a exumar os restos para pôr-lhe fogo.

A carta seguinte não tardou a chegar, e nela Mercedes, como se estivesse a par da minha reflexão, me suplicava para que cremasse meu pai, pois não podia seguir vivendo (assim dizia, seguir vivendo) naquela incerteza. Preferia saber que meu pai havia decidido finalmente não reunir-se a ela do que continuar esperando por toda a eternidade, talvez em vão. Ela me tratava por senhor. Não posso negar que aquela carta me comoveu fugazmente (isto é, enquanto a lia, e não depois), mas o conspícuo carimbo de Astúrias era algo demasiado prosaico para que eu pudesse ver aquilo tudo como algo mais do que uma brincadeira macabra. A segunda carta também foi ao lixo. Minha mulher, Marta, me viu parti-la, e perguntou:

- O que é isso que tanto tem te irritado? – Meu gesto deve ter sido violento.

- Nada, nada – eu disse, e cuidei de recolher os pedaços para que ela não pudesse recompor a carta.

Esperava uma terceira carta, e justamente porque a esperava tardou a chegar mais do que o previsto, ou me pareceu que a espera foi maior. Era muito diferente das anteriores e se assemelhava às que havia recebido meu pai durante um tempo: Mercedes me tratava com intimidade e se oferecia em corpo, não apenas em alma. “Poderá fazer o que quiser comigo”, me dizia, “o quanto imagina e o quanto não te atreve a imaginar que possa fazer com um corpo alheio, o corpo de outro. Se atendes a minha súplica de desenterrar e cremar teu pai, de permitir que ele possa se reunir comigo, não voltará a esquecer-me em toda tua vida, nem mesmo na tua morte, porque te engolirei, e me engolirá”. Creio que ao ler isto pela primeira vez ruborizei, e durante uma fração de segundo cruzou pela minha cabeça a idéia de viajar a Gijón, para estar ao alcance daquela mulher (me atrai o insólito, sou sujo no sexo). Mas em seguida pensei: “Que absurdo. Nem sequer sei seu sobrenome”. No entanto, esta terceira carta não foi ao cesto. Ainda a escondo.

Foi então que Marta começou a mudar de atitude. Não é que de um dia para o outro se convertera em uma mulher ardente e deixara de bocejar, mas foi adquirindo um interesse e uma curiosidade maiores por mim ou por meu corpo já não muito jovem, como se intuísse uma infidelidade de minha parte e estivesse alerta, ou ela própria a tivesse cometido e quisesse averiguar se também comigo era possível o recém-descoberto.

- Vem aqui – me dizia às vezes, e ela nunca havia me solicitado antes. Ou então falava um pouco, dizia, por exemplo – Sim , sim, agora sim.

Aquela terceira carta que prometia tanto me havia deixado à espera de uma quarta ainda mais que a segunda irritante à espera da terceira. Mas essa quarta não chegava, e me dava conta de que aguardava o correio diário com cada vez maior impaciência. Notei que sentia um transtorno cada vez que um envelope não levava remetente, e então meus olhos iam rapidamente até o carimbo, para ver se era de Gijón. Mas ninguém escreve de Gijón.

Passaram-se os meses, e no dia de Finados Marta e eu fomos levar flores à tumba de meus pais, que é também a de meus avós e a de minha irmã.

- Não sei o que acontecerá conosco – disse a Marta enquanto respirávamos o ar puro do cemitério, sentado em um banco próximo a nosso jazigo. Eu fumava um cigarro e ela controlava as unhas estirando os dedos a certa distância de si, como quem impõe calma a uma multidão. – Quero dizer, quando morrermos, aqui já não haverá lugar.

- Em que coisas você pensa.

Olhei para longe para adotar um ar sonolento que justificasse o que ia dizer e disse:

- Eu gostaria de ser enterrado. Dá uma idéia de repouso que não dá a cremação. Meu pai quis que o cremássemos, lembra? E não cumprimos sua vontade. Devemos segui-la, eu acho. A mim me incomodaria se não cumprissem a minha, de ser enterrado. O que você acha? Deveríamos desenterrá-lo. Assim, além do mais, haveria lugar para mim quando morresse, no jazigo. Tu poderia ir ao dos teus pais.

- Vamos embora daqui, tu está me deixando doentia.

Começamos a caminhar por entre as tumbas, em busca da saída. Fazia sol. Mas aos dez ou doze passos eu me detive, olhei a brasa do meu cigarro e disse:

- Não acha que deveríamos cremá-lo?

- Faça o que quiser, mas vamos sair daqui.

Joguei o cigarro no chão e o sepultei na terra, com o sapato.

Marta não esteve interessada em assistir à cerimônia, que careceu de toda emoção e teve a mim como única testemunha. Os restos do meu pai passaram de reconhecíveis em um ataúde a irreconhecíveis em uma urna. Não achei que fizera falta espalhá-los, e, ademais, fazer isso está proibido.

Ao voltar para casa, já tarde, me senti deprimido; sentei-me na poltrona sem tirar o agasalho e acender a luz, e fiquei ali esperando, sussurrando, pensando, ouvindo o chuveiro de Marta ao longe, talvez me recompondo da responsabilidade e do esforço de ter feito algo que estava pendente desde muito tempo, de haver cumprido um desejo (um desejo alheio). Depois de um instante minha mulher, Marta, saiu do banheiro com o cabelo ainda molhado e enrolada em um roupão, que é rosa pálida. A iluminava a luz do banheiro, no qual havia vapor. Sentou-se no chão, a meus pés, e apoiou a cabeça úmida em meus joelhos. Depois de alguns segundos eu disse:

- Você não deveria se enxugar? Está me molhando o agasalho e a calça.

- Vou te molhar todo – disse ela, e não trazia nada debaixo do roupão. Iluminava-nos a luz do banheiro, ao longe.

Aquela noite foi feliz porque minha mulher, Marta, foi lasciva e imaginativa, me disse coisas bonitas e não bocejou, e me bastou. Isso eu nunca esquecerei. Não voltou a se repetir. Foi uma noite de amor. Não voltou a se repetir.

Alguns dias depois recebi a quarta carta por tanto tempo esperada. Ainda não me atrevi a abri-la, e às vezes tenho a tentação de rasgá-la sem mais nem menos, de jamais lê-la. Em parte é porque creio saber e temo o que dirá essa carta, que, ao contrário das três que me dirigiu Mercedes anteriormente, tem cheiro, recende um pouco a colônia, a uma colônia que nunca esqueci ou que conheço bem. Não voltei a ter uma noite de amor, e por isso, porque não voltou a se repetir, tenho às vezes a estranha sensação, quando a relembro com saudade e intensidade, de que naquela noite traí meu pai, ou de que minha mulher, Marta, me traiu com ele (talvez porque nos demos nomes fictícios ou criamos existências que não eram as nossas), ainda que não caiba dúvida de que naquela noite, na casa, no escuro, sobre o roupão, só havia Marta e eu. Como sempre, Marta e eu.

Não voltei a ter uma noite de amor nem voltei a me satisfazer apenas com minha mulher, e por isso também vou de putas, cada vez mais caras e apreensivas, não sei experimentar os travestis. Mas tudo isso pouco me interessa, não me preocupa e é passageiro, ainda que tenha que durar um pouco. Às vezes me surpreendo pensando que o mais fácil e desejável seria que Marta morresse antes, porque assim eu poderia enterrá-la no lugar do jazigo que ficou vazio. Deste modo, não teria que dar-lhe explicações sobre minha mudança de opinião, pois agora desejo que me cremem, e não que me enterrem, de modo algum que me enterrem. No entanto, não sei se ganharia alguma coisa com isso – me surpreendo pensando –, pois meu pai deve estar ocupando seu lugar junto a Mercedes, meu lugar, por toda a eternidade. Uma vez cremado, pois – me surpreendo pensando –, teria que acabar com meu pai, mas não sei como se pode acaba com alguém que já está morto. Penso às vezes se essa carta que ainda não abri não dirá algo diferente do que imagino e temo, se não me daria ela a salvação. Logo penso: “Que absurdo. Nem sequer nos vimos”. Logo observo a carta, a dobro e lhe dou voltas entre minhas mãos, e ao final acabo sempre a escondendo, ainda sem abri-la.

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“Primeira Confissão”, Frank O’Connor

[Conto]
[Título original: First Confession]
[Inicialmente publicado em 1950, em Traveller’s Samples: stories and tales]
[Retirado do livro: My Oedipus Complex and Other Stories, editora Penguin, coleção Modern Classics, 2005, páginas 23-30]

Todo o problema começou quando meu avô morreu e minha avó – a mãe do meu pai – veio morar conosco. As relações em uma casa já são tensas em seus melhores momentos, mas, para tornar as coisas piores, minha avó era uma verdadeira senhora rural e bastante inadequada para a vida na cidade. Ela tinha um velho rosto gordo, enrugado, e, para a indignação de mamãe, andava pela casa com os pés descalços – as botas ela tinha inutilizado, dizia. Para jantar ela possuía uma botija de cerveja preta e uma tigela de batatas com – às vezes – um pouco de peixe salgado, e espalhava as batatas na mesa e as comia lentamente, com muito gosto, usando seus dedos como garfo.

Agora, as garotas supostamente são meticulosas, e era eu quem sofria mais com isso. Nora, minha irmã, sugava da velha mulher algum do dinheiro que ela recebia toda sexta-feira de sua pensão por idade avançada; algo que eu não poderia fazer. Eu era honesto demais, esse era meu problema; e quando eu estava brincando com Bill Connell, o filho do sargento-major, e via minha avó vindo em nossa direção com a botija de cerveja sobressaindo por debaixo de seu xale, eu ficava mortificado. Dava desculpas para não deixá-lo entrar na casa, pois nunca poderia estar certo de como ela estaria quando nós adentrássemos.

Quando mamãe estava no trabalho e minha avó fazia o jantar, eu nunca o tocava. Nora uma vez tentou fazer com que eu comesse, mas me escondi sob a mesa e levei a faca comigo, por precaução. Nora comportou-se como se indignada (ela não estava, claro, mas sabia que mamãe se importava com seu comportamento e então se aliava com a vó) e veio em minha direção. Eu investi contra ela com a faca, e depois daquilo ela me deixou sozinho. Fiquei lá até que mamãe chegou do trabalho e fez meu jantar, mas quando papai chegou mais tarde Nora contou em uma voz de choque: “Oh, pai, sabe o que o Jackie fez na hora da janta?” Então, claro, tudo aconteceu; papai me deu uma surra; mamãe interferiu, e por dias depois daquilo ele não falou comigo e mamãe não falou com Nora. E tudo por causa daquela velha mulher! Deus sabe que eu estava de coração escaldado.

Então, para coroar meus azares, tive que fazer minha primeira confissão e comunhão. Quem nos preparou para estas foi uma senhora chamada Ryan. Ela tinha por volta da mesma idade da vó; era bem de vida, morava em uma grande casa em Montenotte, vestia um manto negro e chapéu, e ia todos os dias à escola às três horas, quando deveríamos estar indo para casa, e nos falava do inferno. Ela pode ter mencionado também os outros lugares, mas isso poderia ter acontecido apenas por acidente, porque o inferno tinha a preferência em seu coração.

Ela acendia uma vela, pegava uma meia-coroa, e a oferecia para o primeiro garoto que conseguisse manter um dedo – apenas um dedo! – na chama por cinco minutos marcados pelo relógio da escola. Sempre sendo bastante ambicioso, fiquei tentado a ser um voluntário, mas pensei que aquilo poderia parecer ganancioso. Então ela perguntou se nós tínhamos medo de manter um dedo – apenas um dedo! – numa pequena chama de vela por cinco minutos e não temíamos queimar por completo em caldeiras escaldantes por toda a eternidade. “Toda a eternidade! Apenas pensem nisso! Todo o tempo de uma vida passa e não é nada, nem mesmo uma gota no oceano de seus sofrimentos”. A mulher estava realmente interessada no inferno, mas minha atenção estava fixa na meia-coroa. No final da aula ela a pôs de volta em sua bolsa. Foi uma grande decepção; uma mulher religiosa como aquela, você não pensaria que ela se importava com algo como uma meia-coroa.

Outro dia ela disse que conheceu um padre que acordou certa noite e encontrou um camarada que ele não reconheceu deitado na extremidade de sua cama. O padre estava um pouco assustado – bastante razoável – mas perguntou ao camarada o que ele queria, e este disse em uma voz profunda e rouca que queria se confessar. O padre disse que aquela era uma hora inoportuna e que não queria fazer a confissão na manhã, mas o camarada disse que na última vez que fizera a confissão houve um pecado que ele manteve para si, com vergonha de mencioná-lo, e agora ele não saía de sua mente. Então o padre soube que aquele era um caso complicado, porque o camarada estava fazendo má confissão e cometendo um pecado mortal. Ele levantou para se vestir, e os galos ainda estavam reunindo-se no quintal lá fora, e – prestem atenção! – quando o padre olha ao redor não havia sinal do camarada, apenas um cheiro de madeira queimada, e quando o padre olhou sua cama não é que ele viu lá a marca de duas mãos queimadas? Aquilo aconteceu porque o companheiro tinha feito uma má confissão. Essa estória me deixou com uma impressão chocante.

Mas o pior de tudo era quando ela nos mostrava como examinar nossa consciência. Havíamos usado o nome do Senhor, nosso Deus, em vão? Havíamos honrado nosso pai e nossa mãe? (Eu perguntei se isso incluía avós e ela disse que sim.) Amáramos nosso próximo como a nós mesmos? Cobiçáramos os bens de nosso próximo? (Pensei no modo como me sentia quando Nora ganhava dinheiro toda sexta-feira.) Decidi que, entre uma coisa e outra, devia ter quebrado todos os dez mandamentos, tudo por conta daquela velha mulher, e, até onde eu podia ver, enquanto ela estivesse na casa eu não tinha esperança de fazer algo mais que isso.

Eu estava com muito medo da confissão. No dia em que toda a classe foi se confessar, eu fingi ter uma dor de dente, na esperança de que minha ausência não fosse notificada; mas às três horas, quando já estava me sentindo seguro, vem um cara com um recado da Sra. Ryan comunicando que eu devia ir me confessar no sábado e estar na capela para a comunhão. Para piorar, mamãe não poderia ir comigo e mandou Nora.

Essa garota tinha meios de me tormentar dos quais mamãe nunca soube. Ela prendeu minha mão enquanto descíamos a colina, com um sorriso melancólico e dizendo o quanto lamentava por mim, como se estivesse me levando para uma operação no hospital.

“Oh, Deus nos ajude!”, ela gemeu. “Não é uma terrível pena que você não tenha sido um bom garoto? Oh, Jackie, eu sinto muito por você! Como você vai conseguir lembrar de todos seus pecados? Não esqueça que tem de contá-lo sobre a vez que você chutou a vó na canela.”

“Deixa eu sair!”, eu disse, tentando me livrar dela. “Não quero ir pra confissão.”

“Mas claro que você terá que ir pra confissão, Jackie”, ela replicou, no mesmo tom lastimoso. “Claro, se não o fizer, o pároco iria em casa procurando por você. Não é, Deus sabe, que eu não sinta por você. Lembra da vez que tentou me matar com a faca, sob a mesa? E a linguagem que você usou contra mim? Eu não sei o que ele fará com você, Jackie. Ele pode ter que mandar você para o bispo.”

Lembro de ter pensado amargamente que ela não sabia sequer metade do que eu tinha para contar – se eu fosse contar. Eu sabia que não poderia contá-lo, e entendia perfeitamente por que o camarada da estória da Sra. Ryan fez uma má confissão; parecia vergonhoso para mim que as pessoas não parassem de criticá-lo. Lembro daquela descida íngreme na colina rumo à igreja, e as colinas para além do vale do rio, iluminadas pelo sol, que eu via através dos espaços entre as casas, como o último vislumbre que Adão teve do Paraíso.

E então, quando ela tinha me conduzido ao pátio da capela depois de descermos alguns lances de escada, Nora repentinamente mudou o tom. Voltou a ser o demônio violento e malicioso que realmente era.

“Aí está você!”, ela disse com um grito de triunfo, me arremessando através da porta da igreja. “E eu espero que ele lhe dê os salmos de penitência, seu insignificantezinho sujo.”

Eu soube então que estava perdido, rendido à justiça eterna. A porta com os painéis em vidro colorido se fechou atrás de mim, a luz do sol sumiu e deu lugar a uma sombra profunda, e o vento assobiava do lado de fora de modo que o silencio que fazia dentro parecia estalar como gelo sob meus pés. Perto do confessionário, Nora sentou-se à minha frente. Havia duas senhoras próximas a ela, e um pobre diabo de aspecto miserável veio e me cercou pelo outro lado, de modo que eu não poderia escapar mesmo se tivesse coragem. Ele juntou as mãos e rolou os olhos na direção do telhado, murmurando aspirações em um tom angustiante, e eu me perguntei se ele também tinha uma avó. Apenas uma avó poderia ser responsável por um camarada se comportar daquela maneira comovente, mas ele estava melhor do que eu, porque ao menos ele podia ir lá e confessar seus pecados; enquanto eu faria uma má confissão e então morreria durante a noite e estaria continuamente voltando e queimando a mobília das pessoas.

Chegou a vez de Nora, e eu ouvi o som de algo se fechando, então sua voz, como se uma manteiga não tivesse derretido em sua boca, e então outro barulho, e ela saiu. Deus, a hipocrisia das mulheres! Seus olhos estavam baixos, sua cabeça inclinada, e suas mãos juntas sob o estômago, e ela subiu para o altar na nave parecendo uma santa. Você nunca viu tal exibição de devoção; e eu lembrava da malícia demoníaca com que ela me tormentara durante todo o caminho, e me perguntei se realmente as pessoas religiosas eram daquele jeito. Era minha vez agora. Com o medo da condenação na alma eu entrei, e a porta do confessionário fechou por si mesma atrás de mim.

Era uma escuridão total e eu não podia ver padre nem nada. Então realmente comecei a ficar assustado. Na escuridão era uma questão entre Deus e mim, e Ele possuía todas as singularidades. Ele sabia quais eram minhas intenções antes mesmo de eu começar a me confessar; eu não tinha chance. Tudo que haviam me dito sobre confissão misturou-se em minha mente, e eu me ajoelhei ante uma das paredes e disse “Abençoe-me, padre, pois eu pequei; esta é minha primeira confissão”. Esperei uns poucos minutos, mas nada aconteceu, então tentei na outra parede. Também lá nada aconteceu. Ele tinha me pegado direitinho.

Deve ter sido então que descobri um suporte à altura da minha cabeça. Era certamente um lugar para pessoas crescidas apoiarem os cotovelos, mas em minha distração pensei que aquele era provavelmente o lugar de você ajoelhar. Claro, ele estava alto e não era muito profundo, mas eu sempre fui bom em escalada e dei um jeito de chegar em cima. O problema era permanecer lá. Havia abrigo apenas para meus joelhos e nada em que você pudesse agarrar, a não ser uma espécie de madeiramento um pouco acima. Agarrei-me a ele e repeti as palavras um pouco mais alto, e dessa vez algo aconteceu. Uma porta foi aberta; um pouco de luz entrou no confessionário, e uma voz de homem disse: “Quem está aí?”

“Sou eu, padre”, eu disse, temendo que ele pudesse não me ver e sair novamente. Não podia vê-lo de maneira alguma. O local de onde a voz veio estava sob o madeiramento, próximo dos meus joelhos, então me soltei do suporte e desci até que pude ver o rosto assombrado de um jovem padre olhando para mim. Ele tinha que pôr sua cabeça de lado para poder me ver, e eu tinha que pôr a minha de lado para poder vê-lo, de modo que estávamos mais ou menos nos falando de cabeça para baixo. Aquele me pareceu um estranho modo de ouvir confissões, mas não achei que era direito criticar.

“Abençoe-me, padre, pois eu pequei; esta é minha primeira confissão”, eu disparei tudo em um só fôlego, e deslizei para onde havia menos sombra, para tornar as coisas mais fáceis para ele.

“O que você está fazendo aí em cima?”, ele gritou em uma voz raivosa; e a força que eu tinha que desprender para continuar agarrado, e o choque por ser tratado em um tom tão incivilizado, foi demais pra mim. Perdi o equilíbrio, caí e saí dando uma porrada na porta antes de me encontrar parado na metade da nave. As pessoas que eu havia deixado esperando ficaram boquiabertas. O padre abriu a porta do meio do confessionário e saiu, tirando a vestimenta da cabeça; ele parecia assustador. Então Nora veio correndo aos pulos do alto da nave.

“Oh, seu insignificantezinho sujo!”, ela disse. “Eu devia saber que você faria isso. Eu devia saber que você me envergonharia. Não posso te deixar fora de vista por um minuto.”

Antes mesmo de eu poder levantar para me defender, ela agachou-se e me deu um tapa na orelha. Isso me lembrou que eu estava tão chocado que tinha até esquecido de chorar, de modo que as pessoas poderiam pensar que eu não havia sentido nada, quando na verdade provavelmente estava mutilado para o resto da vida. Dei um berro.

“Pra que tudo isso?”, o padre sibilou, ficando mais raivoso e empurrando Nora pro lado. “Como você se atreve a bater no menino desse jeito, sua megera?”

“Mas eu não consigo fazer minha penitência com ele, padre”, Nora resmungou, engatilhando um olhar revoltado contra ele.

“Bem, vá e faça, ou lhe darei algo mais para fazer”, ele disse, me dando uma mão para levantar. “Você estava vindo se confessar, estava, meu pobre homem?”, ele me perguntou.

“Isso, padre”, eu disse soluçando.

“Oh”, ele disse respeitosamente, “um camarada forte como você deve ter terríveis pecados. Essa é sua primeira vez?”

“Isso, padre”, eu disse.

“Pior ainda”, ele disse tristemente. “Os crimes de toda uma vida. Não sei mesmo se me verei livre de você ainda hoje. É melhor você esperar até que eu acabe aqui com esses mais velhos. Você pode ver por seus olhares que eles não têm muito para contar.”

“Esperarei, padre”, eu disse com algo próximo de alegria.

O alívio era realmente enorme. Nora me deu a língua pelas costas dele, mas nem mesmo me incomodei em replicar. Desde o momento que aquele homem abriu a boca eu soube que ele era mais inteligente que a média. Quando tive tempo para refletir, pude ver o quanto eu estava correto. Era lógico que um camarada confessando-se após sete anos teria muito mais para contar do que gente que o faz toda semana. Os crimes de toda uma vida, exatamente como ele dissera. Aquilo era o que ele esperava, o resto era a lenga-lenga de senhoras e garotas com suas conversas sobre inferno, o bispo, e os salmos de penitência. Isso era tudo que eles sabiam. Comecei a fazer o exame de minha consciência, e, excluindo o problema com minha avó, ela não parecia tão má.

Da vez seguinte, o padre me guiou ele mesmo para o confessionário e deixou a porta aberta o suficiente para eu puder vê-lo entrar e sentar-se, do outro lado da grade.

“Bem, agora”, ele disse, “como lhe chamam?”

“Jackie, padre”, eu disse.

“E qual é o problema com você, Jackie?”

“Padre”, eu disse, sentindo que poderia acabar com tudo enquanto ele ainda estava de bom humor, “eu tinha arranjado tudo para matar minha avó.”

Isso parece tê-lo deixado um pouco perturbado, porque por um momento ele não disse nada.

“Céus”, ele disse enfim, “isso seria algo horrível de se fazer. O que pôs isso em sua cabeça?”

“Padre”, eu disse, lamentando por mim mesmo, “ela é uma mulher terrível.”

“Ela é?”, ele perguntou. “Em que sentido ela é terrível?”

“Ela toma cerveja, padre”, eu disse, sabendo, pela maneira com que mamãe falava disso, que se tratava de um pecado, e esperando que isso fizesse o padre ter uma visão mais favorável do meu caso.

“Oh, Deus!”, ele disse, e eu pude ver que estava impressionado.

“E ela funga, padre”, eu disse.

“Isso é mesmo muito mau, Jackie”, ele disse.

“E ela anda de pés descalços, padre”, continuei em uma apressada autocomiseração, “e ela sabe que não gosto dela, e dá dinheiro para Nora e nenhum para mim, e meu pai sempre fica do lado dela e me surra, e uma noite eu estava tão revoltado que coloquei na cabeça que teria que matá-la.”

“E o que você faria com o corpo?”, ele perguntou com grande interesse.

“Eu estava pensando que poderia cortá-lo em pedaços e levá-lo dentro de um carrinho de mão que tenho”, eu disse.

“Nossa, Jackie”, ele disse, “você sabia que é uma criança terrível?”

“Eu sei, padre”, eu disse, porque estava pensando exatamente a mesma coisa. “Eu tentei também matar Nora com uma faca, sob a mesa, apenas não a acertei.”

“Essa é a garota que estava lhe surrando ainda a pouco?”, ele perguntou.

“Isso padre.”

“Alguém a atacará com uma faca um dia, e não irá errar o alvo”, ele disse cripticamente. “Você deve ser corajoso. Aqui mesmo entre nós há um bocado de gente às quais eu gostaria de fazer o mesmo, mas não teria nervos. Enforcamento é uma morte horrível.”

“É mesmo, padre?”, perguntei com o mais profundo interesse – sempre gostei bastante de enforcamento. “Você já viu um camarada enforcado?”

“Dúzias deles”, ele disse solenemente. “E todos eles morreram berrando.”

“Sério?!”, eu disse.

“Oh, uma morte horrível”, ele disse com grande satisfação. “Muitos dos camaradas que vi também mataram suas avós, mas todos diziam ‘isso não valeu a pena’.”

Fiquei lá falando por dez minutos, e então saímos para o pátio da capela. Eu estava honestamente triste por me separar dele, porque ele foi o personagem religioso mais divertido que eu já conheci na vida. Do lado de fora, saído da escuridão da igreja, a luz do sol era como o estrondo de ondas numa praia; aquilo me deslumbrou; e quando o silêncio congelado derreteu e ouvi o guincho dos bondes na estrada, meu coração disparou. Agora eu sabia que não morreria durante a noite para depois voltar e deixar marcas na mobília da minha mãe. Aquilo seria uma preocupação tremenda para ela, e a pobre alma já tinha o bastante.

Nora estava sentada na grade, esperando por mim, e transformou-se numa garotinha azeda quando viu o padre comigo. Ela estava morta de ciúmes, porque um padre nunca a tinha acompanhado para fora da igreja.

“Bem”, ela perguntou friamente depois que ele me deixou, “o que ele passou pra você?”

“Três Ave-Marias”, eu disse.

“Três Ave-Marias”, ela repetiu com incredulidade. “Você não deve ter contado tudo.”

“Eu contei tudo a ele”, eu disse confidentemente.

“Sobre a vó e tudo?”

“Sobre a vó e tudo.”

(Tudo que ela queria era poder ir pra casa e dizer que eu fiz uma má confissão.)

“Você contou a ele que me atacou com uma faca?”, ela perguntou franzindo as sobrancelhas.

“Sim, com certeza”.

“E ele passou apenas três Ave-Marias?”

“Isso foi tudo.”

Ela desceu da grande com um ar confuso. Claramente isso estava além de sua compreensão. Enquanto nós subíamos de volta para a estrada principal ela me olhava suspeitosamente.

“O que você está chupando?”

“Bombom.”

“Foi o padre quem te deu?”

“Foi.”

“Santo Deus”, ela gemeu amargamente, “algumas pessoas têm toda a sorte! Isso não é um incentivo para quem tenta ser bom. Eu podia ser também uma pecadora como você.”

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“Orientação dos Gatos”, Julio Cortázar

[Conto]
[Título original: Orientación de los Gatos]
[Inicialmente publicado em 1980]
[Retirado do livro: Queremos Tanto a Glenda, editora Punto de Lectura, 2004, páginas 11-17]

Quando Alana e Osíris me olham não posso queixar-me da menor dissimulação, da menor duplicidade. Olham-me de frente, Alana sua luz azul e Osíris seu raio verde. Também entre eles olham-se assim, Alana acariciando o lombo negro de Osíris, que levanta o focinho do prato de leite e mia satisfeito, mulher e gato conhecendo-se desde planos que me escapam, que minhas carícias não conseguem ultrapassar. Faz tempo que renunciei a qualquer domínio sobre Osíris, somos bons amigos a partir de uma distância infranqueável; mas Alana é minha mulher e a distância entre nós é outra, algo que ela parece não sentir mas que se interpõe em minha felicidade quando Alana me olha, quando me olha de frente que nem Osíris e me sorri ou me fala sem a menor reserva, entregando-se em cada gesto e cada coisa como entrega-se no amor, ali onde todo seu corpo é como seus olhos, uma entrega absoluta, uma reciprocidade ininterrompida.

É estranho, ainda que eu tenha renunciado a entrar de cheio no mundo de Osíris, meu amor por Alana não aceita essa simplicidade de coisa concluída, de casal para sempre, de vida sem segredo. Por trás desses olhos azuis há mais, no fundo das palavras e dos gemidos e dos silêncios alenta outro reino, respira outra Alana. Nunca a disse isso, a quero o suficiente para não despedaçar essa superfície de felicidade pela qual hão deslizado já tantos dias, tantos anos. À minha maneira me obstino em compreender, em descobrir; a observo mas sem espioná-la; a sigo mas sem desconfiar; amo uma maravilhosa estátua mutilada, um texto não terminado, um fragmento de céu inscrito na janela da vida.

Houve um tempo em que a música me pareceu o caminho que me levaria de verdade a Alana; olhando-a escutar nossos discos de Bártok, de Duke Ellington, de Gal Costa, uma transparência paulatina me aproximava dela, a música a desnudava de uma maneira diferente, a tornava cada vez mais Alana porque Alana não podia ser somente essa mulher que sempre me havia olhado em cheio sem ocultar-me nada. Contra Alana, para além de Alana eu a buscava para amá-la melhor; e se de início a música me deixou entrever outras Alanas, chegou um dia em que diante de uma gravura de Rembrandt eu a vi mudar ainda mais, como se uma mágica das nuvens no céu houvesse alterado bruscamente as luzes e sombras de uma paisagem. Senti que a pintura a levava além de si mesma para esse único espectador que podia medir a metamorfose instantânea nunca repetida, a entrevisão de Alana em Alana. Intercessores involuntários, Keith Janet, Beethoven e Aníbal Troilo me haviam ajudado a aproximar-me, mas frente a um quadro ou uma gravura Alana se despojava ainda mais disso que acreditava ser, por um momento entrava em um mundo imaginário para, sem sabê-lo, sair de si mesma, indo de uma pintura a outra, comentando-as ou calando, jogo de cartas que cada nova contemplação embaralhava para aquele que sigiloso e atento, um pouco atrás ou levando-a pelo braço, via suceder-se as rainhas e os ases, as copas e os paus, Alana.

O que se podia fazer com Osíris? Dar-lhe seu leite, deixá-lo em seu novelo negro, satisfeito e ronronante; mas Alana eu podia trazê-la a esta galeria de quadros como o fiz ontem, uma vez mais assistir a um teatro de espelho e de câmaras obscuras, de imagens tensas na tela frente a essa outra imagem de alegres jeans e blusa roxa que depois de esmagar o cigarro na entrada ia de quadro em quadro, detendo-se exatamente à distância que seu olhar pedia, voltando-se para mim de vez em quando para comentar ou comparar. Ela jamais pôde descobrir que eu não estava aqui pelos quadros, que, um pouco atrás ou de lado, o meu modo de olhar não tinha nada a ver com o seu. Jamais se daria conta de que seu lento e reflexivo passo de quadro em quadro a alterava até o ponto de obrigar-me a fechar os olhos e lutar para não apertá-la nos braços e levá-la ao delírio, a uma carreira louca em plena rua. Desenvolta, leviana em sua naturalidade de prazer e descobrimento, suas paradas e demoras se inscreviam em um tempo diferente do meu, alheia à irritada espera da minha sede.

Até então tudo havia sido um vago anúncio, Alana na música, Alana frente a Rembrandt. Mas agora minha esperança começava a cumprir-se quase insuportavelmente; desde nossa chegada Alana se havia entregado às pinturas com uma atroz inocência de camaleão, passando de um estado a outro sem saber que um espectador escondido espreitava sua atitude, a inclinação de sua cabeça, o movimento de suas mãos ou seus lábios, o cromatismo interior que lhe percorria até mostrá-la outra, ali onde a outra era sempre Alana somando-se a Alana, as cartas aglomerando-se até completar o baralho. A seu lado, avançando pouco a pouco ao longo dos muros da galeria, eu a ia vendo entregar-se a cada pintura, meus olhos multiplicavam um triângulo fulminante que se estendia dela ao quadro e do quadro a mim mesmo para voltar a ela e empreender a mudança, a auréola diferente que a envolvia um momento para ceder depois a uma aura nova, a uma tonalidade que a expunha à verdadeira, à última nudez. Impossível prever até onde se repetiria essa osmose, quantas Alanas me levariam por fim à síntese da qual sairíamos os dois cheios, ela sem sabê-lo e acendendo um novo cigarro antes de pedir-me que a levasse para tomar um trago, eu sabendo que minha longa busca havia chegado a um porto e que meu amor abarcaria a partir de agora o visível e o invisível, aceitaria o limpo olhar de Alana sem incertezas acerca de portas fechadas, de paisagens proibidas.

Diante de um barco solitário e um primeiro plano de rochas negras, a vi parar imóvel por um bom tempo; um imperceptível ondular das mãos a fazia como nadar no ar, buscar o mar aberto, uma fuga de horizontes. Já não podia estranhar-me o fato dessa outra pintura onde uma grade de pontas afiadas vedava o acesso às árvores vizinhas a fizera retroceder como que buscando um ponto de observação, tal era a repulsa, a recusa de um limite inaceitável. Pássaros, monstros marinhos, janelas entregando-se ao silêncio ou deixando entrar um simulacro da morte, cada nova pintura arrasava Alana, despojando-a de sua cor anterior, arrancando dela as modulações da liberdade, do vôo, dos grandes espaços, afirmando sua negação frente à noite e ao nada, sua ansiedade solar, seu quase terrível impulso de ave fênix. Fiquei atrás, sabendo que não me seria possível suportar seu olhar, sua surpresa interrogativa quando visse em minha cara o deslumbramento da confirmação, porque isso também era eu, isso era meu projeto Alana, minha vida Alana, isso havia sido desejado por mim e dominado por um presente de cidade e parcimônia, isso agora enfim Alana, enfim Alana e eu desde agora, desde este instante. Quis tê-la desnuda nos braços, amá-la de tal forma que tudo ficasse claro, tudo ficasse dito para sempre entre nós, e que dessa interminável noite de amor, nós que já conhecíamos tantas, nascesse a primeira alvorada da vida.

Chegávamos ao final da galeria, me aproximei da porta de saída, no entanto ocultando o rosto, esperando que o ar e as luzes da rua me devolvessem ao que Alana conhecia de mim. A vi deter-se diante de um quadro que outros visitantes me haviam ocultado, parar imóvel por bastante tempo olhando a pintura de uma janela e um gato. Uma última transformação fez dela uma lenta estátua nitidamente separada das demais, de mim que me aproximava indeciso buscando-lhe os olhos perdidos na tela. Vi que o gato era idêntico a Osíris e que mirava ao longe algo que o muro da janela não nos deixava ver. Imóvel em sua contemplação, parecia menos imóvel que a imobilidade de Alana. De alguma maneira senti que o triângulo se havia fechado, quando Alana voltava para mim a cabeça o triângulo já não existia, ela havia ido ao quadro mas não estava de volta, continuava ao lado do gato olhando para além da janela onde ninguém podia ver o que eles viam, o que somente Alana e Osíris viam cada vez que me olhavam de frente.

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